quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

BONECASDÁ-ME

DÁ-ME A BONECA ----  I

Entre as muitas bonecas possuídas
eu reparti, na vida, o meu carinho.
Cada uma marcou, no meu caminho,
etapas facilmente percorridas.

Minhas bonecas lindas, tão queridas,
que eu embalei, nos braços, de mansinho
como uma mãe embala o seu filhinho,
hoje postas de lado, não esquecidas.

Pedi-te uma boneca, linda, bela,
para que eu pudesse, ao vê-la a ela,
envolver num olhar tua lembrança.

Tolo, sorriste deste meu pedido
e partiste descrente e convencido
que eu, em vez de mulher, era criança.

                   I I
Simbólica, a boneca que eu pedi
faria hoje a delícia dos meus dias:
eu seria feliz e tu serias
o homem que amei e não vivi.

Sofri de amor por não te ter aqui,
nas minhas horas prenhes de agonias,
sabendo que te queria e tu me querias
para sempre, dia a dia, junto a ti.

Se eu tivesse a boneca, apetecida,
olhando-a, lembraria a nossa vida
e seria feliz por ser mulher.

Mas tu não queres que eu sinta em meu redor
a chama ardente do teu "grande amor"
e que a boneca iria, em mim, manter.


( algures..anos 60 )


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

TRANSFORMAÇÃO

TRANSFORMAÇÃO

Acreditei sincero
o teu amor,
pura a transparência
desse olhar;
sem mancha o teu sorriso
encantador
que me fez sonhar.

Acreditei em tuas falas
belas,
no firme caminhar
dos passos teus,
achei beleza
nas coisas mais singelas.
Feliz,
acreditei
estar nos céus...
...................................................................
Como uma ave
que voa,
como uma nuvem
que passa,
acabou-se a hora boa,
estilhaçou-se a minha taça.

.....................................................................
Banal coisa abandonada,
sem valor,
em pedaços,
espalhada,
pelo chão,
é hoje
esse teu ideal amor,
cruel desilusão.





segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

BLOQUEIOS

BLOQUEIOS

        I

Bateu-me a dor no peito.

Uma dor tão brutal
e tão intensa,
tão violenta,
tão profunda.
tão sem jeito,
que eu bloqueei.

Só ouvia a tua voz,
num grito,
tão aflito...
mãe....mãe....mãe....

Esqueci tudo que havia  à minha volta,
meu pensamento
disparou
como um garrano,
enfurecido,
à solta,
sem saber o que tinha acontecido.

Esqueci
até o nome do amigo
que estava ali,
comigo,
e que me sustentou.

Queria correr,
voar,
para te socorrer,
te abraçar,
te agarrar
para não te perder.

Mas,
meu amor tão querido,
era tarde demais:
tu já tinhas partido!

         II
Quando quis ouvir
aquela música que era tua,
não consegui
por me lembrar
de ti e bloqueei.

Tentei!
Quantas vezes tentei!
-- juro que me esforcei --
mas foi em vão.

Cada vez que eu ia tentar
pôr de novo a tocar
a tua música...
não conseguia.
Doía-me o peito,
a alma,
o coração.

E eu não conseguia...
sequer reconhecê-la!...

Dentro de mim
a saudade gritava....
ó meu amor querido!...
nada mais me restava
nem lágrimas,
nem gemidos,
nem ais...

Tu já tinhas partido
e não voltavas mais!!

          I I I
Entrei na nossa casa,
qual criança
cheia de amor,
cheia de esperança
de te ver,
de te ter,
de te abraçar...

Mas tu não estavas la!

Corri a casa toda
mas em vão....
tudo era um vazio.

De ti,
nem um sinal:
um abraço,
um beijo,
um assobio
escutei...

E, de novo, sem querer,
eu bloqueei!

Sentei-me
sobre a cama
sem ter jeito
como se estivesse,
ainda,
à tua espera.

Mas a casa vazia
não fazia sentido.

Não gemi,
não gritei
e nem chorei por ti,
ó meu amor querido....

Por mais que eu não quisesse
tu já tinhas partido.

Não estavas mais ali!




domingo, 19 de janeiro de 2014

ORAÇÃO

Esta é uma singela homenagem a um grande amigo
Ao Senhor Padre José João Diogo

  O R A Ç Ã O

Fui feita à semelhança do Senhor,
homem divinizado sobre a terra
e, tudo que de bom meu peito encerra
por Ele me foi dado com amor.

Genuflecti e rezei com fervor
por meus irmãos perdidos, nesta guerra
mundana, travada sobre a terra,
guerra crescente, cada vez maior.

Rezei por quantos andam sem guarida
perdidos nos caminhos desta vida,
vale de lágrimas, de sangue, de suor.

Rezei para que achassem o conforto
de levar suas barcas, a bom porto,
guiadas p'lo  Farol do Salvador.

( anos 60 )

domingo, 12 de janeiro de 2014

MEDO

MEDO

Quero-te
com toda a garra
que há em mim:
na força do prncípio,
na fraqueza do fim.

Quero-te
como a rocha
outrora solta
agarra agora a hera
que se vai enleando
tenaz
á sua volta.

Quero-te
como a jovem mãe
espera e desespera
p'lo momento feliz
do nascimento...

Quero,
com toda a força dos meus braços
te prender
porque,
um dia,
poderá talvez acontecer
alguém de arrancar de mim
e eu ficar assim,
sem nunca mais te ver....

sem nunca mais te ter....
perto de mim.

Não!

Não quero
nem sequer imaginar
que aquele Deus que tudo pode
e te inventou
poderá,
um dia aqui chegar
de mau humor
e sem qualquer razão determinar:

-- " É hora de partir
que o tempo terminou!!!

E eu, Senhor?
o que faço a seguir?
p'ra onde vou?
ser ter o meu amor?

SEM VOLTA A DARntra

SEM VOLTA A DAR

Aqui, no meu colo, tão grande e tão pequeno
eu tenho o breviário mais sereno
que alguma vez li.

Ele foi, por certo, a biblia mais relida,
onde aprendi a perceber a vida
que conheci, em ti!

Ai, " Poemas de Deus e do Diabo"...
tu foste o meu mar alto sem ter cabo
que eu pudesse dobrar.

Li-te!..reli-te!...e, continuo lendo
e em ti, diáriamente, aprendo
como era improvável teu gostar.

É que, eu era o teu Diabo e o teu Deus,
era o caminho entre o Inferno e os Céus
que, ás vezes, desejavas.

Mas, não podias trair a natureza,
escolher entre o feio e a beleza,
por isso me afastavas.

Adoravas a mãe que te parira.
Veneravas aquela que te abrira
os olhos p'ro Amor todo pureza.

E, quando, esta, batia á tua Toca
com ela ia o diabo sempre à coca
de te deixares vencer pela fraqueza

que te tentava: " não desistas, ama!...
E tu, tentando apagar a chama
lutavas,  furioso, contra o Vai! e o Vem!

Olhavas o começo da estrada;
fugias dessa curta caminhada
que ia do Poderoso ao Zé Ninguém.

De olhar metálico vias-me partir,
deglutias a dor e a sorrir,
fechavas com fragor a tua porta;

E, ficavas, ali, atrás, parado,
encostado á madeira, do outro lado,
a chorar tua esperança fria, morta.

Cruel contigo, a vida disse Não!
e eu parti sentindo adeus em tua mão
quando me despedi e fui embora.

Era o fim antecipado p'lo destino
que tornando teu amor em peregrino
te levava sózinho, mundo fora.

(  Inédito )